quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Judy Garland, um ícone gay

As pessoas ficam interessadas quando eu lhes falo da Judy Garland, mais concretamente no seu papel de Dorothy Gale, como sendo um icóne gay. Ficam admiradas! Porque é que aquela menina adorável que atravessa a estrada de tijolos amarelos é um icóne gay? Ela de gay não tem aparentemente nada. É apenas uma criança que vive uma aventura num reino mágico, onde não está retratada a homossexualidade ou qualquer outro tipo de orientação sexual.


"There's no place like home"



"Follow the yellow nick road"

Bem, a resposta é simples se pensarmos no contexto em que The Wizard of Oz (1939) foi realizado. Desde a estreia do filme que Judy Garland começou a gerar uma obsessão por homens gays. Numa altura em que não existiam famosos a apoiar as causas homossexuais ou a retratar nos meios de comunicação tal orientação, o público gay refugiou-se na mocinha de vestido azul de algodão.

"Toto, I've a feeling we're not in Kansas anymore."


Mas porquê Judy Garland? Ela nem sequer era homossexual?
Conhecida como "Elvis dos homossexuais", Judy "reunia em uma única pessoa três aspectos que encantavam os gays: admiração como performer, uma vida dramática, além do seu jeito afetado e exagerado de se expressar". De facto, vejam um filme de Judy ou uma entrevista. A mulher é de uma expressividade enorme e contagiante. Quando canta, gesticula, transmitindo uma energia inspiradora.


Este excerto é interessante:


"O fato foi comprovado por reportagem na revista Time, em 18 de Agosto de 1967, sobre um show de Judy no Palace, em Nova York. "Curiosamente, uma parte desproporcional de sua claque parece ser de homossexuais. Os garotos de calça apertada reviram os olhos, rasgam os cabelos e praticamente levitam de seus assentos, particularmente quando Judy canta: If happy little blue birds fly / beyond the rainwbow / why oh why can't I", disse a revista americana, que relatou ainda a presença de um fã brasileiro na plateia. No mesmo texto, a psiquiatra Leah Schaefer afirma que tal atração ocorre porque Judy teria "sobrevivido a diversos problemas e os homossexuais se identificam com esse tipo de histeria". Para o também psiquiatra Lawrence Hattere, "Judy tomou porrada da vida, se preparou para os combates e se tornou mais masculina, tendo o poder que os gays gostariam de ter"."







The Wizard of Oz está repleto de aspetos que apelam facilmente à mentalidade gay. A música Over the Rainbow, a mais famosa de Judy Garland e que ela canta no referido filme, suscita facilmente identificação por parte de um gay da altura, em que ser "diferente" era crime.

"Em algum lugar além do arco-íris, bem lá em cima
Existe uma terra sobre a qual ouvi falar
Uma vez em uma canção de ninar

Em algum lugar além do arco-íris, os céus são azuis
E os sonhos que você ousa sonhar
Realmente se tornam realidade

Um dia, vou desejar a uma estrela
E acordar onde as nuvens estão longe de mim
Onde os problemas derreteram como balas de limão
Muito acima do topo das chaminés
É lá que você vai me achar

Em algum lugar além do arco-íris, pássaros azuis voam
Pássaros voam por cima do arco-íris
Então por que eu não posso?

Se pequenos e felizes pássaros azuis voam
Acima do arco-íris
Por que eu não posso?"



Repare-se que a bandeira gay é um arco-irís. Não deve ser mera coincidência.

Além da música, não nos esqueçamos dos amigos "diferentes" e solitários que Dorothy conhece e tão bem trata: um espantalho, um homem de lata e um leão que é, claramente, afeminado.

A chegada ao reino de oz



Forma dos homossexuais se tratarem antigamente era através da expressão "amigo de Dorothy" (uma espécie de código). Acredita-se que esta expressão se deva talvez ao nome da protagonista de The Wizard of Oz.

Embora não haja certezas de nada, a verdade é que o velório de Judy coincidiu  com a rebelião de Stonewall, ocorrida na madrugada de 28 de junho de 1969. Esta rebelião é considera o início do movimento homossexual. Segundo se diz, naquela noite, a polícia chegou mais uma vez ao bar Stonewall, que era frequentado por gays e travestis. Era comum serem humilhados e expulsos do bar pela polícia. Acontece que naquela noite, os homossexuais estavam de luto e não reagiram bem às exigências da polícia. Iniciou-se uma cena de pancadaria. Eles chamavam mesmo Judy de "Santa Judy".

O bar Stonewall



"Williamson, que também é presidente da Associação de Veteranos de Stonewall, afirma que Judy teve tudo a ver com a rebelião. "Quem diz o contrário não estava lá. O quebra-quebra não teria acontecido se Judy estivesse viva", afirma. Ele lembra o clima no dia. "Fui ao funeral, estava chocado. Muitos estavam na praia gay, no Brooklyn, ouvindo as músicas dela, tocadas exaustivamente nas rádios. Depois todos foram para os bares, especialmente o Stonewall. Falavam de seus filmes, músicas, problemas. Estávamos tristes. Alguns choravam e até faziam um brinde à 'Santa Judy'. Várias vezes ela disse que éramos especiais e que nos amava. À uma da manhã, os policiais chegaram", relembra. Ainda segundo o veterano, os policiais atacaram o bar na noite errada. "Alguns deles admitiram que foi burrice ter feito aquilo na parte gay do Village e da Christopher Street no dia do funeral da Judy. Foi um ato desrespeitoso", criticou Williamson."

Veja-se a entrevista de Williamson Hendersom, presidente da Associação de Veteranos de Stonewall.

"O que Judy Garland tem com Stonewall?
Tudo a ver, definitivamente. Aqueles que dizem negam provavelmente, não estavam lá no dia. Senão, saberiam. Se não sabiam são burros ou mentirosos. Porque, na noite do dia 27 de junho, no Stonewall e em todos os bares gays, as pessoas estavam muito tristes. Alguns até choravam pela morte da Judy. Era o dia do funeral dela e muitos estavam em Manhattan para ver o corpo. Algumas pessoas faziam um brinde à "Santa Judy". No Stonewall tocaram exaustivamente alguns discos dela semanas após sua morte. Depois à uma da manhã, os policiais chegaram. Eles escolheram a noite errada, o lugar errado e a cidade errada. Foi imbecil.
O que ela fez para se tornar um ícone gay?
Ela era talentosa e se tornou uma estrela muito jovem, aos 13 anos. Ela também era dramática, apaixonada e se expressava de uma maneira muito exagerada. Os gays seguiam a carreira dela de perto. Ela era a estrela favorita. Ela tinha um poder gay enorme, assim como Barbra Streisend e Madonna. 


A Judy se comunicava com o público gay?
Sim, ela disse várias vezes explicitamente que amava os gays e que eram muito especiais. Ela podia se identificar conosco e a gente com ela. O fato de aquele dia ter sido o funeral dela, claro, fez com que os gays revidassem os ataques. Eles estavam muito tristes de tê-la perdido.


Você foi ao funeral dela?
Sim. Eu fui no dia anterior e vi o corpo, mas não chorei, embora estivesse chocado. Judy tinha apenas 47 anos. Foi um evento enorme, ela era uma celebridade internacional. Vários membros da família Kennedy estavam no funeral.


A vida dela de crise era inspiração?
Sim e o fato dela ser muito dramática nos filmes, como em "Nasce uma estrela", que é um dos favoritos dos gays, também. Ela participou ainda de diversos musicais da Broadway.

Cena de A Star is born (1954), onde Judy canta The man that got away


Você acha que se Judy não tivesse morrido Stonewall teria ocorrido em outra época?
Talvez tivesse ocorrido um pouco mais tarde. Ninguém tem como saber. Mas definitivamente não teria acontecido naquela noite. O funeral foi a fagulha que culminou na relebilão.


Onde estavam os gays naquele dia?
Muitos estavam em Riss Park, uma praia gay no Brooklyn em frente a um parque, ouvindo rádio, porque estavam tocando demais as músicas dela. 


O funeral era próximo desse local?
O funeral foi em Manhattan, mas ficava bem próximo. Muitos saíram da praia e foram direto para os bares, especialmente o Stonewall.


Havia alguma programação especial nos bares naquele dia?
As pessoas estavam tocandoƒ as músicas dela toda hora na jukebox. Todos estavam muito tristes, ela era assunto nas conversas, falavam dos seus filmes, das músicas, da vida dela, dos problemas. E depois de tudo o que ela passou, acabou morrendo de overdose de drogas, em Londres. Ela estava debilitada, senão teria sobrevivido. Foi um acidente. 


E como foi a repercussão da morte dela no noticiário?
Ela morreu num domingo e esteve na capa dos jornais a semana toda. A emoção foi sendo construída aos poucos. Muitos policiais que participaram da rebelião têm mantido contato conosco anos a fio e em um de nossos encontros eles admitiram que foi burrice ter atacado o Stonewall na parte gay do Village, na Christofer gay, no mesmo dia do funeral da Judy em Manhattan. Foi um ato muito desrespeitoso. E burro.


Quantos anos você tinha quando saiu do armário?
Eu era tecnicamente bissexual antes da rebelião de Stonewall. Comecei a perceber que gostava mais de garotos quando passei a frequentar o bar.


Fale sobre os bares e os locais que os gays frequentavam... Você tinha medo?
As pessoas não tinham medo de ir a bares gays. Depois que você entrava, estava seguro. Todos os bares eram da máfia e eles cuidavam muito bem, a propósito. Eles gostavam de ter um negócio rentável e tinham que ser agradáveis para os clientes voltarem. Se você quisesse escutar algo na jukebox e o disco não estivesse mais lá, eles colocavam de volta. Eram muito amigáveis. Qualquer pessoa que fale o contrário não chegou a frequentar um bar gay da máfia. Se fossem nojentos ou egoístas nao funcionariam por muito tempo. Os bares eram muito populares e estavam sempre cheios. 


Fale sobre as batidas policiais...
Não era considerada uma batida se os policiais fossem a um bar e recebessem grana. Parava logo ali. Eu estive em muitos bares em que as luzes se acendiam e um policial aparecia na porta. Era um sinal. Eles não costumavam checar identidade, exceto na noite de Stonewall. O que eles faziam era acender as luzes, pegar a grana com os garçons e ir embora.


E se não recebessem a grana?
Eles pediam para os clientes a identidade, que dificilmente alguém tinha, e acabavam prendendo.


A desculpa para prender os clientes gays era a falta de identidade?
Sim, esta era a desculpa que eles usavam.


Os bares realmente tinham a tal licença para vender bebidas?
A gente mal sabia quem era gay lá dentro, como é que poderia imaginar que não tinha licença? As pessoas sempre perguntam se eu sabia. Eu acho que eles não tinham a licença, foi o que ouvi na época. 


Os policiais também promoviam batidas nos bares héteros?
Não, porque eram legais. Naquela época, ter um bar gay significava promover a homossexualidade. E isso era ilegal aqui nos Estados Unidos. Era pura discriminação.


Os policiais batiam nos gays quando prendiam?
Não, isso é mentira. Às vezes, eles liberavam as pessoas no próprio bar. Às vezes, levavam para a delegacia. Eu só fui detido uma vez, foi o suficiente. Foi na noite do Stonewall."


Repare-se que Judy foi casada com dois homossexuais, um deles o talentoso realizador Vincent Minnelli, além de que o seu pai era homossexual. Talvez isto fizesse com que os homossexuais se identificassem ainda mais com ela.

Judy e Minnelli

Acredito que hoje em dia Judy não seja um icóne gay tão poderoso como outrora. Embora não tão influente, é uma marca.Num inquérito, Judy ficou em primeiro lugar como icóne gay feminino.





Referências

http://acapa.virgula.uol.com.br/politica/morte-de-judy-garland-pode-ter-motivado-levante-de-stonewall/2/5/8579

http://acapa.virgula.uol.com.br/politica/judy-garland-tem-tudo-a-ver-com-stonewall-diz-veterano-da-rebeliao-de-69/2/5/8597

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