segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Kim Novak, a lavander blonde: palavras de um fã apaixonado

Ela é considerada a última estrela “produzida” dentro da política do star system. Por um triz que Kim Novak faz parte daquele que é, muito seguramente, o melhor momento do cinema: a época de ouro de Hollywood, que abrange os anos 30, 40 e 50.



A Lavander Blonde



Kim é das estrelas que mais me fascina. O processo de fascinação que o cinema exerce sobre a nossa mente pode ser complexo pode acontecer de forma curvilínea, como um caminho que serpenteia até chegarmos a Manderley. Porquê o fascínio por Kim? Ela poderia ser definida de forma superficial, e mesmo injusta, como mais uma loira do cinema. E, se assim é, ela não poderia concorrer com a Marilyn Monroe que, pelo menos a uma primeira vista, é muito mais chamativa e revela um magnetismo enorme. A paixão por Kim não acontece logo, assim que se vê uma foto ou um filme, exceto Vertigo. A paixão é construída ao longo do tempo.
Eu penso que descobri quem era Kim ao deparar-me com informações do filme Pal Joey (1957). Descobri este musical maravilhoso através da pesquisa que tenho feito sobre Rita Hayworth, a diva das divas. Na altura, achei Kim pouco interessante. Fria e não muito bonita. Obviamente que estava enganado. Ela não é muito fotogénica mas revela o seu belo rosto em filmes (de preferência a cores, pois a preto e branco ela quase se torna invisível).
Kim foi descoberta por Harry Cohn, chefe da Columbia, e foi escalada para substituir Rita Hayworth como deusa do sexo do estúdio. Rita foi muito seguramente a maior estrela da Columbia na época clássica. Nos anos 40 e início dos 50, a ruiva estonteante foi um fenómeno de bilheteira, tendo sido intitulada de “Love Goddess”. Rita tinha uma beleza alegre e sabia dançar. Era explosiva e transbordava energia, ainda que tivesse constantemente uma faceta melancólica (que é bem notada em Gilda (1946) ou The Lady from Shanghai (1947)).



                                                       Rita hayworth vs Kim Novak



Kim é considera uma estrela menor que Rita, embora eu julge que o seu estrelato tenha sido quase tão poderoso quanto o da ruiva. A loira glaciar nem sequer está no top das 50 maiores estrelas do cinema segundo a AFI. Rita ocupa um honrado 19º lugar.
A carreira de Kim é também bem mais curta que a de Rita. Pode dizer-se que, deste modo, Kim está em desvantagem em relação a Rita. Ora, a questão não é assim tão simples.
Se Rita encantava enquanto dançava com os seus cabelos a balançar, a beleza de Kim residia na sua aura de mistério e no seu porte rijo e passivo. A beleza de Rita é mais facilmente sedutora, atrativa. Mas também mais vulgar que a de Kim. E em relação à carreira, se Rita fez mais filmes, alguns dos poucos que Kim fez são considerados de grande valor cinematográfico: The man with the golden arm (1954), Picnic (1955) e obviamente Vertigo. Se Gilda é icónico, então Vertigo nem se fala (sendo que, no entanto, a femme fatale ruiva é visualmente mais conhecida que Madeleine/Judy).


Rita como Gilda


Kim estava num papel injusto e difícil ao ter de substituir Rita. Afinal, a deusa do amor era uma grande estrela e sabia dançar. Já para não falar que era a única ruiva sex symbol. Kim não sabia bailar e era mais uma loira entre tantas. Mas ela conseguiu construir uma carreira e dar um cunho pessoal às suas interpretações, distanciando-se de outras loiras. Mais do que substituir Rita, ela teve a impossível tarefa de concorrer com Marilyn, estrela da Fox. Ainda bem que a nova estrela da Columbia não fez papéis de loira burra, salvo Phffft! (1954). Os papéis melancólicos que a caracterizaram são a sua praia e exploram o seu encanto que não é, certamente, a sexualidade explosiva, mas sim, gelada, camuflada. Ela própria admitiu em entrevista que não tinha nada a ver com Marilyn. Kim tem uma aura de mistério e tristeza que foi bem explorada e que a marcou e diferenciou de restantes atrizes. A maioria das loiras de Hollywood são sex symbols com uma sensualidade óbvia. Mas Kim, ao pé de Grace Kelly, revelou ser uma loira gelada, ao estilo de Hitchcock.


Marilyn Monroe vs Kim Novak


O primeiro filme que vi dela foi Vertigo. O meu filme favorito. E como ela está perfeita! A crítica, que sempre foi dura com ela, não gostou do seu desempenho, achando-o “perfunctory” (superficial e mecânico). Bem, a meu ver, Kim é a essência do filme. Eu até acho que ela não se teve de esforçar muito para fazer o papel de Madeleine, pois ela tem muito a ver com a personagem. Ok, obviamente que há outros tantos ingredientes que fazem de Vertigo uma obra de arte: a câmara de Hitchcock, a própria cidade de São Francisco, a música de Bernard Herman, o argumento e o desempenho de James Stewart. Mas caramba, Kim consegue fazer dois papéis completamente diferentes e com competência. O papel de Madeleine cabe-lhe como uma luva: a sua beleza misteriosa, fria, elegante, distante. 
Kim Novak como Madeleine




O de Judy, mulher de beleza vulgar e com uma atitude sexualmente visível, não é a cara de Kim. Mas ela conseguiu construir uma mulher morena plausível. Sem Kim, Vertigo não seria a mesma coisa. Ela deveria ter ganhado o óscar de melhor atriz (se eu dissesse isto nos anos 50, rir-se-iam de mim). Ela parece um fantasma, um belo fantasma a vaguear pela Paris americana. O seu caminhar! Que arrepio! Como António Giménez-Rico reparou, Kim anda de um modo muito sui generis. Um pé para a frente do outro, depois outro... Quando sai da casa de banho como ressuscitando, temos a Kim no seu habitat: beleza fantasmal com uma música de arrepiar e obsessiva. 

Kim Novak como Judy



Kim Novak com o seu estranho e encantador andar



No livro Actors & Actresses, The International Dictionary of Films and Filmmakers, Richard Lippe diz que a atuação de Kim “merece tanta admiração quanto a de Jimmy Stewart”. Para mim, até melhor, com todo o respeito daquele que é o meu ator favorito do cinema. Que homem não fica perdido da cabeça com Kim Novak, ainda mais com Madeleine.
Penso que Kim nunca soube o que Hitchcock achou da sua performance, mas é conhecido o desinteresse do mestre do suspense pela loira da Columbia. Grace Kelly, “Tippi” Hedren e Ingrid Bergman são provavelmente as loiras favoritas de Hitchcock. Kim é a minha favorita.




Depois de Vertigo, comecei a investigar mais e mais a carreira de Kim e factos da sua vida.Penso que, a seguir a Vertigo, assisti ao razoável Jeanne Eagles (1957). Eu não acredito que o filme seja muito fiel à vida de Jeane Eagles, mas a história é interessante e prende a atenção. Kim faz uma atuação complexa. Afinal, tem várias falas e mostra muitos estados de espírito. Com toda a justiça, ela reclamou para que ganhasse o mesmo salário que o seu parceiro, Jeff Chandler.

Kim Novak em Jeanne Eagles

Mulher dedicada à pintura (e tem mesmo talento), Kim teve direito ao lançamento de uma box com cinco filmes seus da Columbia, tendo eu a recebido a versão espanhola, ligeiramente diferente da original. 

Box norte-americana de Kim Novak



Um deles é Pal Joey, que eu já havia visto antes de receber a box e que é o meu segundo filme favorito da misteriosa loira. Ela nunca esteve tão bela. Tão loira, tão angelical. Quando “canta” My funny Valentine é de arrepiar. Aquele close-up! Que par romântico que faz com Frank Sinatra. Espantoso. Ele a cantar “I could write a book” e a abraçar nas suas costas: um dos melhores planos do filme.
Pal Joey é uma elegância de musical. Os números são pouco criativos. Passam-se em palco, à exceção do maravilhoso Bewitched, Bothered and Bewildered, “cantado” por Rita Hayworth.
Kim confessou em entrevista que achou aborrecido fazer o papel de Linda English porque “só tinha de parecer sentir aquilo que a personagem sentia. Ao passo que em Vertigo podia parecer uma coisa e no interior sentir outra. A minha vida foi sempre assim, um misto”. É, de facto, um papel simples e desinteressante, mas o filme é maravilhoso.

Maravilhoso plano de Kim Novak sendo abraçada por Frank Sinatra


Seguiu-se a este, Pushover (1954), que me encantou. Sabia muito pouco acerca deste noir quase desconhecido. Foi uma agradável surpresa. É neste filme que Kim tem o seu primeiro grande papel: o de uma femme fatal ao estilo de Barbara Stanwyck em Double Indeminty (1944), embora não encarne mulher tão preversa. De facto, Kim transmite uma certa vulnerabilidade. O protagonista do filme é Fred McMurray, o mesmo ator do noir acima citado, o que acentua a semelhança entre os dois filmes. O filme é bom e explora o voyeurismo assim como Rear Window (curiosamente, ambos os filmes foram lançados em 1954). As personagens são um pouco “frochas”. Ela apaixona-se muito depressa por ele, preocupa-se muito por ele e ao mesmo tempo é cruel por querer ver o seu vil namorado morto. O final é dotado de um romantismo que chega ao ponto de ser idiota. De fatal, Kim passa a desempenhar o papel de uma mulher virginal que perde o seu amor. Defeitos à parte, Pushover é um bom filme.


Kim Novak em Pushover



De seguida vi Picnic ou Bell, Book and Candle (1958), também integrados na box. Penso que foi este último. Recebido com exito moderável, hoje a comédia ligada à magia é adorada por muita gente. Eu não achei o filme nada de especial mas Kim tem um bom desempenho e está no seu papel mais sexy, pelo menos dentro dos filmes que eu vi. A cena em que enfeitiça James Stewart com o seu gato… tão sensual.

A sexy Kim Novak em Bell, Book and Candle


No filme, Kim usa um decote nas costas. Eu realmente penso que as costas desta atriz foram bastante vezes fetichizadas, não sei porquê. Não é que sejam feias, mas, que diferença têm em relação às outras. Em Vertigo, a primeira vez que Kim aparece, esta veste um belo vestido com um igual decote nas costas. E existe um foto  (terceira imagem a partir daqui) em que a bela mulher mostra mais uma vez essa parte do seu corpo.






Picnic foi uma desilusão. Na altura do lançamento, Picnic foi um grande êxito. E hoje é adorado por alguns. Bem, eu consido-o um aborrecimento. A atuação de Kim não é das melhores e eu percebo que o filme seja dotado de uma carga sexual considerável para a época (estranhamente, William Holden é mais fetichizado que Kim). Percebo que a crítica social patente no filme também lhe dê valor, já para não falar dos enquadramentos maravilhosos. Mas, mesmo assim, o filme é uma seca.

A famosa dança em Picnic

Kim Novak linda provavelmente no set de Picnic


The Notorious Landlady (1962) foi o último filme que assisti integrado na box. Um filme bem fraco. Tem um começo tão apelativo. Foi uma desilusão e uma mistura chata de géneros: da comédia ao drama e de volta à comédia ao estilo do cinema mudo.

Kim Novak e Jack Lemmon em The Notorious Landlady


Entretanto vi The man with the golden arm onde se nota a boa química entre Frank Sinatra e Kim. Embora não tenha um papel assim tão marcante, a existência da personagem de Kim naquele mundo marginal, cinzento, decandente e sombrio é uma luz, uma esperança para o pobre Frank. Um filme duro com uma doce Kim Novak.


Kim Novak e Frank Sinatra em The man with the golden arm

 Seguidamente assisti The mirror’s cracked (1980), um filme onde Kim representa junto da magnífica Elizabeth Taylor. Apesar do elenco, o filme é fraco e Kim tem um papel superficial e desinteressante.

Kim Novak e Elisabeth Taylor em The mirror's cracked

Anseio por ver Kiss me, stupid (1964), filme que a pouco e pouco tem se vindo a tornar bem valorizado, não fosse ele realizado pelo grande Billy Wilder.

Kim Novak, sensual em Kiss me, stupid


Conhecida por “Lavender Blonde”, pois a Columbia queria vender a estrela através da publicidade de que a sua cor favorite era o lilás, Kim marcou terreno no cinema, ainda que tendo uma carreira pequena. Os seus filmes realmente importantes estão basicamente concentrados na segunda metade dos anos 50. O ano de 1958 é provavlemente o ano mais “Kim Novak”. Afinal, foi neste que foram lançados os conhecidos Vertigo e Bell Book and Candle.






Com duas missões impossíveis (cocncorrer com Rita e Marilyn), Kim formou o seu próprio perfil, inovador e bastante diferente daqueles que dominavam Hollywood. A loira tinha quase tanto mistério quanto Greta Garbo, sua atriz favorita. Apenas uma mulher misteriosa como Kim poderia encarnar a deusa gelada em Vertigo. A única que, além dela, poderia fazer tal papel, era a pópria Garbo. Mas atenção. Garbo não é carnal. Logo não poderia fazer uma tão perfeita Judy quanto Kim. Esta sim, é estranhamente carnal, conseguindo uma física mulher morena, ao mesmo tempo que revela uma espitual mulher loira.


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