domingo, 12 de julho de 2015

Meet me in Saint Louis (1944), um musical refletor de crises familiares e do valor da família



Eu vi Meet me in Saint Louis antes de Easter Parade e as minhas expectativas eram enormes. Este musical atrativo com aquela casa vitoriana ao estilo playmobil ea família Smith com vestes de época ao estilo "bonecos da casa de brincar" são um prazer para os olhos. Estamos a falar de um musical realizado por Vincent Minnelli e isso significa bom gosto ao nível musical e visual, onde as cores berrantes se combinam de forma harmoniosa e esquisita.

 Era um musical que eu queria muito ver, dada a sua aparente beleza, e por ser tão amado por tanta gente. Além disso, eu amava, e amo, a música "The trolley song", já para não mencionar o factor principal que me levou a querer ver o filme: Judy Garland.








A família Smith




Ora bem, a primeira vez que o vi, em finais de 2014, fiquei um pouco decepcionado. Eu não achei que fosse um mau musical, mas cansou-me um bocado, dada a sua lentidão ao nível de desenvolvimento da história, além de me ter levado a pensar que o filme não tinha exatamente um plot. Valeram as músicas, as boas interpretações e os cenários maravilhosos.

Pois bem, voltei a ver o filme, querendo dar-lhe outra oportunidade. E não me arrependi. Eu tinha visto de novo, muito recentemente, Easter Parade. Quando vi esse musical da MGM pela primeira vez, em inícios de 2015, fiquei contente com o que vi. Eu andava desencantado com a filmografia da Judy. Nenhum musical correspondia às minhas expectativas (A Star is born, Meet me in Saint LouisSummer Stock) e Easter Parade superou-as. Não que ele seja uma jóia soberba dos musicais, mas porque as minhas expectativas estavam, ao contrário do que aconteceu com os outros filmes, bastante medianas. Acontece que Easter Parade é realmente agradável e, com o segundo visionamento, eu gostei ainda mais desse filme. Desta forma, decidi voltar a ver Meet me in Saint Louis para poder comparar com Easter Parade. Mesmo antes de os rever, eu coloquei Meet me in Sant Louis na lista dos 50 filmes que mais gosto e Easter Parade ficou de fora. Isto porque eu estava convencido que iria gostar, caso visse de novo, mais de Meet me in Saint Louis do que o filme sobre a Páscoa. Isso não aconteceu. Eu realmente prefiro Easter Parade. Acontece que isso não significa que este seja um filme superior a Meet me in Saint Louis. E não é mesmo. O filme de Minnelli é superior, pois ultrapassa o mero objetivo de entreter. Easter Parade é o filme mais belo a nível de cor, vivo e vibrante. As músicas são boas e as interpretações também. No entanto, Meet me in Saint Louis é quase melhor em tudo.


Eu fui pouco sensível à história da família Smith quando vi o filme pela primeira vez. Agora decidi tomar uma perspectiva mais contemplativa e calma, analisando e envolvendo-me numa vida quotidiana familiar dentro de uma bela casa. O filme fala da família e das ameaças à sua união. Isto é um tema muito importante, tocante, doce e facilmente suscitador de identificação. A família Smith é grande e isso permite reforçar a união entre os seus membros. Todas as gerações são amigas: o avô, o casal de meia idade, as filhas mais velhas, o filho mais velho e as crianças Agnes e Tottie, incluindo também a cozinheira e o gato de estimação. É muita harmonia. A casa é aconchegante e bela. É um mundo de contos de fadas, onde Judy canta alegremente junto da sua família. Isto é o filme em quase toda a sua duração.



 Quando ele começa a perder força, surge a ameaça: a ida da família para Nova Iorque. Agora a harmonia familiar está enfraquecida. Andam todos tristes, tentando manter a boa ambiência. As paredes vermelhas da casa já não são tão calorosas, mesmo em contraste com o frio e neve do inverno. Como se não bastasse assistir a esta dolorosa crise familiar, ainda temos de assistir ao transtorno em plena época natalícia.


Felizmente as coisas resolvem-se. A família volta a ficar unida em Saint Louis.


A história é simples mas tocante e, pensando bem, não é assim tão simples. Tootie, interpretada pela querida e talentosa Margaret O'Brien é uma criança mórbida e, depois de ouvir a sua irmã Esther, interpretada por Judy, a cantar "Have yourself a merry little Christmas", corre para o jardim e decapita os seus bonecos de neve em completo desespero por não se querer mudar para Nova Iorque. Esta cena é aflitiva, desconcertante. E ainda mais assim é, porque acabámos de escutar a citada balada cantada por Judy. Embora esta quebra de melancolia para ira aconteça, o sentimento de tristeza mantém-se, o que causa lágrimas no espectador (eu pelo menos quase chorei). A revolta de Tootie é grande e  o seu lado mórbido é claramente manifestado. Esta cena faz com que o pai de família, encarnado por Leon Ames, mude ideias e decida ficar em Saint Louis.


Imagem retirada do site http://theblondeatthefilm.com/2013/12/19/meet-me-in-st-louis-1944/


A música e o aspeto visual são o forte da história, mas esta não deve ser rebaixada como eu fiz. "The trolley song", "Meet me in Saint Louis" e "Have yourself a merry little Christmas" são muito agradáveis e as cores do filme quentes e hipnotizantes. Vale dizer, todavia, que este musical não é dos mais fortemente coloridos. As cores são meias outonais e não variam muito. Já para não falar do lado sombrio do musical, aspeto pouco presente neste género cinematográfico. A cena do Halloween, estranha e indicadora de que aquela brincadeira de crianças é mais do que isso, pode significar a tentativa das crianças superarem os seus medos na vida real. Tootie não superou a possibilidade de se mudar para Nova Iorque, infelizmente. Minnelli viu a possibilidade de se retirar a sequência do Halloween do filme mas o realizador tinha feito este filme precisamente por essa cena. Conseguiu fazer com que ficasse e, sem dúvida, que é uma cena interessante. A alegria da primeira parte do filme, com Judy a cantar no trolley repleto de cores vivas contrasta com a negrura da cena do Halloween, o que pode ser um presságio da aproximação do conflito presente na casa Smith: a ida para Nova Iorque.



 As interpretações são todas muito boas. Judy não queria fazer o papel de Esther, a segunda filha mais velha, por estar cansada de fazer de raparigas adolescentes. A jovem estava crescida e queria interpretar mulheres. Ainda bem que Judy aceitou dar vida a Esther, não fosse esta um dos seus papéis mais famosos e apreciados. Ela está tão viva, alegre, sentimental, doce para sua irmã Tootie. Judy não se achava bonita e, com este filme, ela ficou muito animada ao considerar-se bela pela primeira vez num filme. Ok, não acho. A sua beleza já havia sido evidenciada em Babes on Boadway e noutros filmes. Eu não gosto do seu penteando em Meet me in Saint Louis. Este não a favorece. Agora, entendo o seu fascínio pela sua personagem. É uma das sua primeiras personagens glamorosas e isso é importante para uma jovem insegura. Foi com este filme que Judy conheceu Minnelli e os dois se apaixonaram. Casariam em 1945. Liza Minnelli, filha dos dois, notou como Minnelli revela o seu amor por Judy ao longo de todo o filme. A própria Liza mencionou o facto de Minnelli enquadrar a sua mãe através da moldura de janelas como se ela fosse uma mulher pintada num quadro: uma obra de arte, portanto.

















Judy Garland como se estivesse enquadrada num quadro: uma obra de arte! Feminina e encantadora, apoiada pelas flores e pelas cortinas brancas que a abençoam




Foto retirada de http://theblondeatthefilm.com/2013/12/19/meet-me-in-st-louis-1944/



Leon Adams está óptimo. Severo, rabugento mas não menos carinhoso. Mary Astor perfeita. Gosto mais dela neste papel de esposa e mãe de família do que no seu papel de femme fatale em The Maltese Falcon. Astor é uma boa atriz. Mas considero-a um pouco apagada. Não é sexy para uma mulher típica dos filmes noir, se bem que o seu papel em The Maltese Falcon não exija muita sensualidade. Em Meet me in Saint Louis ela está tão bem. Está mesmo carinhosa para as suas filhas.



Leon Adams
































Mary Astor (em cima) com Margaret O'Brien e (em baixo) com Lucille Bremer e Judy Garland




Margaret O'Brien é queria mas por vezes irrita-me. Claro que é uma boa atriz, mas por vezes cansa-me. A irmã que faz de Agnes, Joan Carroll, é expressiva e tem boa química com Margaret O'Brien. Harry Davenport e Lucille Bremer estão igualmente bem. Eu tenho pena que Bremer não se tenha tornado uma grande estrela. Ela é bonita e faz um bom papel. Mais ajuízada e sensual que Esther, a sua Rose é uma das minhas personagens favoritas. Marjorie Maine, que faz de empregada, também está bem com as suas respostas duras e ao mesmo tempo engraçadas, revelando também ser tratada basicamente como um membro da família.



Margaret O'Brien e Judy Garland




Joan Carroll



Harry Davenport e Judy Garland no seu maravilhoso vestido vermelho (nesta cena ela está bem bonita)





Lucille Bremer




Marjorie Maine



O filme foi um sucesso, o maior da MGM desde Gone with the Wind, não ultrapassando este épico. Um filme estranho, belo, onde alegria e medo, insegurança e tristeza se chocam num retrato realista de uma família que parece viver numa maravilhosa casa de bonecas. E como em qualquer casa de bonecas, a alegria é a grando vencedora.

Foto retirada de http://theblondeatthefilm.com/2013/12/19/meet-me-in-st-louis-1944/

É Esther quem olha para o vizinho mas quem olhava através da câmara, Minnelli, é que estava realmente apaixonado pela doce rapariga enquadrada pela janela da casa de bonecas

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