terça-feira, 1 de setembro de 2015

Homossexualidade no cinema clássico: perigosos, estereotipados e, acima de tudo, muita sugestão

O cinema é fascinado por sexo e tudo o que é proibido. É a arte mais castrada, impossibilitada de revelar coisas explicitas ao contrário da pintura, da escultura e do teatro burlesco. Talvez por isso, seja tão fascinado e invente forma de mostrar sem mostrar, ou seja, de sugerir.

A homossexualidade, em tempos em que ser gay ou lésbica era arruinar uma carreira, era sugerida no cinema, muito disfarçadamente.

Os homossexuais masculinos foram, julgo eu, mais explorados que os femininos. Assim sendo, enumero alguns dos personagens implicitamente homossexuais ou possivelmente gays do cinema clássico:



Robin Hood




Há quem diga que a personagem de Robin Hood é gay (aquela amizade com o rapaz de vermelho no início do filme pode parecer suspeita) mas eu não acredito. Muito forçado. Então e Olivia de Havilland? Não dá para esquecer a cena romântica no quarto com ela junto à janela onde beija o seu Robin.


Minha opinião (quase nunca com certezas) em negrito:

Robin Hodd: É gay; não é gay






Alberto Beddini





Beddini, o italiano arrogante de Top Hat, age estereotipadamente como um homossexual. Mas não é. Ele ama Ginger. Como ele diz, "For the women the kiss, for the men the sword". Atenção, a espada é um símbolo fálico...

Beddini: é gay; não é gay




Johnny Farrell e Balin Mundson





É muito dificil negar que estes dois homens protagonistas no filme Gilda não sejam homossexuais, ou melhor, bissexuais. A relação entre os dois é mais intensa que entre qualquer um deles e a mulher supostamente disputada, Rita Hayworth. Desde a questão de Ballin dizer que tem dois amigos (Johnny e a sua bengala: objeto fálico por si só, mas que, como se isso não bastasse, ainda possui uma espécie de faca numa das pontas (mais fálico é dificil)), até ao facto de Johnny ser tão leal para com Ballin, que lhe salvou a vida como Robin Hood salvaria Maid Marian, tudo aponta para uma relação homossexual. E porque razão Gilda está revoltada com o passado de Johnny? Será que a traiu com um homem? E é preciso referir a cena em  que Johnny olha para a cama de Ballin. Vi o filme sem saber desta história da homossexualidade e imaginando com os dois homens apaixonados um pelo outro. Embora faça mais sentido que os dois queiram Gilda, a questão da homossexualidade também é coerente.


Johnny Farrell e Balin Mundson: são gays (acho mais seguro dizer bissexuais porque também estão apaixonados, pelo menos Johnny Ferrel, por Gilda); não são gays



Drácula





As conotações entre o vampiro e o sexo são bastante conhecidas. Só por isso, e por Lugosi morder um homem ao inicio do filme Drácula (1931) é que me levam a pensar que ele pode ser homossexual. Acho que é bissexual, pois tanto morde homens como mulheres.

Drácula: é gay (ou melhor, bi, pois morde homens e mulheres); não é gay



Peter Lorre





Claro que é homossexual. Não há dúvidas. Não que eu ache piada ao estereótipo apresentado por Peter. Mas não posso ignora-lo. Sei que o estereótipo serve para mostrar ao público que Peter é gay. É esse o propósito. Qual seria a razão de o The  Maltese Falcon frisar o bastante de que Peter tem perfure de lavanda (que leva Bogart a trocar um olhar meio trocista com a sua secretária) e de se adornar tanto? Já para não falar de que não tem qualquer companheira.

Peter Lorre: é gay; não é gay



Grabiel "Gobby" Broome




Talvez Gobby, personagem de Born to be Bad, seja homossexual. Não há nada de muito indicador sobre isso, mas é uma possibilidade. Há esta frase que pode indicar alguma coisa:

"Christabel Caine Carey: You don't care very much for women, do you? 
Gabriel 'Gobby' Broome: My dear girl, apart from painting my major occupation is convincing women's husbands that I'm harmless."

Gabriel "Gobby" Broome: é gay; não é gay



Uncle Charlie



É o típico vilão de Hitchcock. Sofisticado, cruel e, possivelmente, gay. Aqui a homossexualidade é muito disfarçada. O bastão elegante e fálico e a ausência de companheira são as únicas pistas. Eu nem diria que Uncle Charlie fosse gay, mas uma vez que sei que Hitchcock faz de alguns dos seus vilões homossexuais, é possível que Uncle Charlie seja mais um deles.

Uncle Charlie: é gay; não é gay



Bruno Anthony



Um vilão de Hitchcock e mais explicitamente homossexual que os vilões de Rope e Shadow of a Doubt. Fisicamente estereotipado. Não há muito a dizer. Não gosta do seu pai. Talvez porque este não aceite a sexualidade do filho?

Bruno Anthony: é gay; não é gay



E agora as lésbicas:

Calamity Jane





Ícone Lésbico, Doris Day, muito provavelmente, ganhou esse estatuto graças, em parte, ao seu papel em Calamity Jane, uma mulher com tendências lésbicas.


Calamity Jane: é lésbica (gosta de homens e de mulheres, mais concretamente); não é lésbica




Ms. Denvers





Personagem tão falada quanto à sua sexualidade. Mas há dúvidas de que é lésbica quando acaricia o seu rosto no casaco da falecida e sua idolatrada Rebecca?


Ms. Denvers: é lésbica; não é lésbica





Dorothy Shaw e Lorelei Lee






Não acho que sejam homossexuais e julgo nunca ter ouvido tal coisa. No entanto, sei que este filme tem sido estudado sobre uma óptica queer, possivelmente por uma espectadora lésbica poder identificar-se com as duas mulheres interpretadas por Jane Russell e Marilyn Monroe que não precisam de homens para viver bem. Basta-lhes a forte amizade que as une. Para Lorelei, os homens são uns idiotas e só servem para lhe dar dinheiro.

Dorothy Shaw e Lorelei Lee: são lésbicas; não são lésbicas



Martha Dobie





Não há dúvidas que a personagem de Shirley MacLaine é lésbica. Ela própria assume o seu amor pela personagem de Audrey. The Children's Hour é um filme poderoso e, provavelmente, um dos primeiros a representar explicita e seriamente a homossexualidade.


Martha Debie: é lésbica; não é lésbica





O tempo evolui e o cinema mudou. Agora tudo é explicito. Era interessante a forma como a homossexualidade era tratada. Tudo muito indirecto. Claro que muitas vezes também ridículo: homossexuais a serem representados de forma demasiado estereotipada (no caso dos homens) ou tratados como seres perigosos.




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